segunda-feira, janeiro 03, 2005

Sobre o "tsunami"

Estive longe (felizmente). De fugida, lá conseguia espreitar para um televisor à hora do almoço. E ontem pude estar mais atento ao que se tem passado, recuperar algumas leituras atrasadas e confirmar a maioria das suspeitas. O "tsunami" foi (como o 11 de Setembro em Nova Iorque e o 11 de Março de Madrid) apenas mais uma desculpa para se fazer mau jornalismo, como tem sido feito sempre que acontece alguma catástrofe. Mais uma vez as imagens da tragédia foram repetidas até à exaustão, muitas delas mostrando um vil desrespeito pelo telespectador. Um caso muito particular: num daqueles clips que as televisões gostam imenso de produzir, com música a condizer com a tragédia, a puxar à lágrima, as imagens de corpos (ou partes de corpos) foram usadas à descarada. Um dos planos mais chocantes mostrava um cadáver pendurado numa varanda. Tiveram o cuidado de o usar com menos tempo (talvez um segundo, não mais). Obrigado. Mas tiveram que o usar, porque, claro, ninguém perceberia a dimensão da tragédia se assim não fosse.
Repetiram-se as histórias de mães que perderam os filhos, arrancados dos braços pela força das águas; repetiu-se a macabra contagem dos mortos. Minuto a minuto; repetiu-se a exploração dos casos particulares, com atenção para os mais dramáticos; mais uma vez os turistas do ocidente mereceram particular destaque. Pergunto-me se o "tsunami" teria o mesmo destaque se não houvesse futebolistas italianos ou estrelas de cinema a passar férias no local. E pergunto-me se não teria muito mais destaque se acontecesse na costa dos Estados Unidos.
Ontem, na TVI, já se anunciava a entrevista com um casal português apanhado pela onda gigante. Mudei de canal.
Nada mudou. José Pacheco Pereira consegue dizer tudo isto numa expressão. "Masturbação da dor". Mais uma vez.

1 Comments:

At 1:14 da tarde, Blogger Kat said...

Masturbação macabra da dor, sem ter fim, sem respeito, sem dó nem piedade, em nome da falsa pretensão de informar. Nunca acreditei, nem acredito, nessa paixão absurda pelo jornalismo, agora muito menos. Talvez com menos paixão, mais talento e profissionalismo fossemos mais longe.

 

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